Conflitos explodem em Paris durante protestos dos “coletes amarelos”


Confrontos entre manifestantes e policiais explodiram neste sábado durante os protestos dos “coletes amarelos” em Paris, e várias estradas estavam bloqueadas em diferentes províncias em uma nova jornada de mobilização nacional contra o governo de Emmanuel Macron.
Cerca de 31 mil membros dos “coletes amarelos” estão nas ruas, e mais de 700 pessoas foram detidas neste sábado, o quarto consecutivo de manifestações desse coletivo antigoverno, informou o secretário de Estado do Interior, Laurent Nuñez.
Pela manhã, a polícia usou gás lacrimogêneo para tentar conter manifestantes em uma rua adjacente à Champs-Élysées, perto do Arco do Triunfo, epicentro dos distúrbios do fim de semana passado. Alguns manifestantes responderam lançando projéteis. Na capital francesa, quase todas as lojas estão fechadas, e suas entradas e vitrines foram protegidas com painéis de madeira para evitar saques e quebra-quebra.
Em Paris, onde houve conflitos entre manifestantes e policiais, pelo menos 8 mil pessoas participavam dos protestos, disse Nuñez à emissora France 2. No fim da tarde, quase 700 pessoas haviam sido presas em Paris. Pelo menos 361 seguiam em prisão preventiva. Os números são similares aos da semana passada.
“Vamos nos manter muito prudentes. Até o momento não houve incidentes graves”, disse Nuñez. “Vamos continuar muito concentrados em Paris e na província para enquadrar as manifestações e desarticular os agitadores. Como sabem, há muitos em Paris”, acrescentou.
Em toda França, foram adotadas medidas de segurança excepcionais, sobretudo em Paris, depois que as cenas de guerrilha urbana do último sábado na capital francesa correram o mundo. Cerca de 90 mil policiais estão mobilizados em todo território. Além disso, pela primeira vez em mais de uma década, veem-se na capital veículos blindados da Gendarmeria.
Todo o Oeste de Paris, onde ficam o Palácio do Eliseu (sede da presidência) e a maioria dos ministérios, estava coberto de azul, a cor das viaturas da polícia. As patrulhas bloqueavam o acesso às principais praças da capital, incluindo a da Concorde, um dos extremos da avenida Champs-Élysées, que vai até o Arco do Triunfo. A Torre Eiffel, o museu do Louvre e as lojas da região manterão suas portas fechadas.
Radicalização do movimento
Denis, de 30 anos, chegou a Paris, procedente de Caen, que fica no Noroeste do país. “O objetivo é ir até o Eliseu”, disse ele à AFP. “Faço isso pelo futuro do meu filho. Não posso permitir que viva em um país em que outros se enriquecem às nossas custas”, explicou.
A poucas ruas do Palácio do Eliseu, na praça de Madeleine, estavam John e Dorian, de 31 e 29 anos, respectivamente. Gendarmes verificam seus documentos. “É a segunda vez! Na estação do metrô já tiraram tudo. Os óculos de natação, o lenço, as caneleiras...”, conta Dorian, procedente de um subúrbio parisiense. “Estamos aqui para que nos escutem, pacificamente”, insistiu.
Muitos dos “coletes amarelos” protestam sem violência. Há uma semana, porém, os mais radicalizados – sobretudo, membros de grupos de extrema direita e de extrema esquerda – invadiram as manifestações e enfrentaram a polícia.
Estradas bloqueadas
Os manifestantes bloqueavam várias estradas do país neste sábado. A autoestrada que conecta Paris a Bordeaux estava totalmente paralisada, depois que mais de 100 pessoas atearam fogo a pedaços de pau e a pneus. Na fronteira franco-espanhola, grupos montaram uma barricada seletiva que bloqueava a passagem dos caminhões procedentes da Espanha, informou a prefeitura dos Pirineus Atlânticos.
Em Marselha, 2 mil “coletes amarelos” desfilavam pelo centro desta cidade do sudeste da França. “É a primeira vez que me manifesto. Recebo 1.248 euros de aposentadoria, e são meus quatro filhos que têm que me ajudar”, afirma Sylvia Paloma, de 70 anos.
Em algumas regiões da França, as autoridades proibiram as manifestações, assim como venda e transporte de gasolina, fogos de artifício e produtos inflamáveis, ou químicos.
Semanas de protestos
Essa onda de manifestações começou em 17 de novembro em oposição a um aumento dos impostos sobre combustíveis, mas nas últimas semanas se tornou um protesto generalizado contra a política econômica e social do governo. Os estudantes bloquearam instituições de ensino e participaram de manifestações, algumas delas marcadas por confrontos com a polícia.
Nesta semana, Macron cedeu a algumas das demandas dos manifestantes. Anulou a alta do imposto sobre combustíveis, parte de um plano para combater a mudança climática, e congelou os preços do gás e da energia elétrica nos próximos meses. As medidas não foram suficientes para conter a ira de um movimento aparentemente sem estrutura ou lideranças, que expressa a exaustão da classe média com a perda de poder aquisitivo.
“Que fique claro que não vamos desistir”, garante Tony Vella, um operário da construção civil, de 32 anos. Ele conta que foi detido pela polícia por duas horas, ao chegar à capital, até ser liberado. “Eu tinha uma máscara antigás e um baseado. Amarraram meus pulsos atrás da nuca”, completou.
O Ministério Público de Paris abriu uma investigação depois do vazamento de parte do plano de segurança para enfrentar os protestos. Com a popularidade em queda e em meio à pior crise de sua presidência, Macron se mantém em silêncio. Deve falar com a imprensa na semana que vem.

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